Observei cética o semideus deformado com vários braços - acho que seis ao total - dirigir a carruagem entre as nuvens negras que se estendia pelo céu turbulento, não havia nada além de nuvens pesadas por conta da chuva e a cada quinze segundos alguém era quase jogado contra a porta de bronze celestial, não seria ironia dizer que aquele motorista era péssimo. Ao meu lado, Jack se curvou sobre a janela tentando observar o que estava acontecendo la fora.
Não consegui conter o impulso de seguir a linha de seu olhar curiosa e ao mesmo tempo preocupada.
- Consegue ver alguma coisa? - questionei hesitando.
Ele não respondeu de primeira, os olhos ameaçadores se voltaram em minha direção e um frio intrigante percorreu por minha espinha, incomodando-me de repente. Estava quase desistindo de esperar pela resposta quando ele desviou os olhos de meu rosto e então fitou o chão de madeira.
- Não. - ele respondeu apenas.
Voltei a fitar o motorista que abriu um sorriso irônico direcionado especialmente para mim, como se tentasse dizer "está chegando sua hora, idiota!". Desviei meus olhos fixando-os em minhas mãos sentindo o olhar sombrio e ameaçador de Jack ao meu lado. Éramos um dos últimos, entretanto os únicos que ficaram sentados observando a estranha carruagem espaçosa.
- Você não parece tão desesperada quanto aparentou estar mais cedo. - observou ele.
Não ousei olha-lo apenas continuei a olhar para minhas mãos.
- Valerie é como uma irmã para mim... - comecei a dizer engolindo em seco.
- Eu sei... eu observava vocês... - admitiu Jack em um tom um tanto melancólico que me chamou a atenção, o olhei novamente para ele e ele me encarava com um olhar indecifrável. Eu estava surpresa com o que acabara de ouvir, afinal eu nunca havia reparado ele em todo o tempo em que estive no acampamento e olha que faz muito tempo! - Quiron resolveu me manter em segredo. Não seria aceito se soubessem quem era meu pai e o que sou capaz de fazer... - respondeu ele se interrompendo subitamente. Seus olhos se abaixaram fixando-se em minhas mãos queimadas pelo fogo da árvore que quase me matara. - ainda assim, não parece preocupada.
Eu soltei um suspiro pesado engolindo em seco.
- Eu sei o que tenho que fazer, e vou proteger minha irmã. - eu disse obstinada, tendo completa consciência no que faria e sabendo quais seriam as consequências que viriam depois. Jack me encarou repentinamente os olhos demonstrando surpresa.
- Você está dizendo que vai mor... - ele começou a dizer sobressaltado quando houve um outro tranco na carruagem derrubando todos os que estavam em pé circulando por entre a espaçosa carruagem que lembrava mais uma sala do que um veiculo.
Até nós, eu e Jack, fomos arremessados contra o chão. Senti meu nariz reclamar ao fazer contato com o chão enquanto uma risada irônica ecoava pelos ventos. Deveria ser uma turbulência, pensei tentando enganar-me com o que de fato era. Harpias, dúzias de monstros com o rosto de mulher e corpos de pássaros de rapina - eu já vira elas em muito lugares no acampamento meio -sangue, elas eram responsáveis pela limpeza do lugar, entretanto havia algo nestas que pareciam mais ameaçadoras, perigosas. - elas atacavam vorazmente as laterais de bronze soltando guinchos e ruídos ensurdecedores, encarei Alec que estava perto da porta, os olhos verdes fixando-se no meu por alguns segundos quando houve novamente um estrondo.
A carruagem nos jogara de lado novamente, porém dessa vez a porta havia sido escancarada e Alec fora junto com ela. Tropega me joguei contra o mar de corpos que se movimentavam de um lado para o outro, jogados como sacos de farinha com total brutalidade. Agarrei o pulso de com força sentindo um vento terrivelmente forte atingir meu rosto com violência, que doía.
Minhas mãos se engancharam na lateral amassada da carruagem sentindo meu corpo ser lançado para fora com uma violência terrível. Não muito longe dali eu podia ouvir os grunhidos ameaçadores que as Harpias lançavam em nossa direção, mas tão pouco me importava com aquilo. Alec gritou algo, mas não consegui entender direito o que era. Olhei para frente e senti a cor de meu rosto desaparecer completamente, logo a frente havia um emaranhado de árvores que se unia entre uma densa floresta (A arena ao qual lutaríamos até a morte!) se aproximando de pressa de mais. Iríamos nos chocar contra elas em vinte, dezenove, dezoito, dezessete,...
- Suba! - gritei para Alec. Dezesseis...
- Suba você! - ordenou Alec. Quinze, quatorze. - Deixe-me cair! Prefiro morrer assim do que a comando de um titã!
Praguejei baixinho. Porque ele tinha que ser tão teimoso? Achava que os filhos de Zeus tinham esse problema, não os de Poseidon, no entanto deveria ser algum carma imposto aos deuses e passados para o filhos, não que eu acreditasse realmente nisto. Treze, doze, onze, dez...
- Não vou soltar você! - berrei forçando minha boca a pronunciar aquelas palavras já que o vento as impedia, meus cabelos chicoteavam meu rosto e era difícil olhar para o rosto de Alec, ainda assim vi um estranho brilho cintilar por seus olhos verdes.
Nove, oito, sete...
- Não seja tola! - berrou ele de volta. - A troco do que faria isso?
Seis, cinco...
- Você salvou minha vida! - gritei sentindo minha garganta raspar. - Não seria justo se o deixa-se cair, você não fez isso comigo!
Quatro, três... Alec me olhou com intensidade, e por um momento me perdi completamente em seus olhos. Seus lábios convidativos se contraíram para baixo e os olhos ainda permaneciam sérios.
- Não foi apenas por isso que a salvei! - ele disse com um tom indefinível.
Dois...
Então que as árvores nos atingisse eu soltei minhas mãos da beirada. Sentindo ser engolida lentamente pelo vento.

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